Todos os anos, a cena repete-se: malas no carro, planos feitos para uns dias no Algarve e, pouco depois, a realidade da autoestrada. Filas, áreas de serviço cheias, quilómetros a andar devagar e a viagem reduzida a uma espera comprida entre Lisboa e o sul.
Mas o caminho de Lisboa ao Algarve não tem de ser sempre igual. Pode seguir junto ao Atlântico, entrar pelo interior alentejano, atravessar estradas nacionais, parar em vilas pequenas e almoçar com tempo antes de chegar ao sul. A autoestrada pode ser mais rápida, mas deixa pouco para contar.
A alternativa passa por escolher uma rota mais bonita e transformar o trajeto numa espécie de Algarve road trip curta. Não precisa de ser uma viagem de vários dias. Com uma saída cedo e algumas paragens bem escolhidas dá para chegar ao destino ao fim do dia com mais para recordar do que portagens e painéis luminosos.
Pela Costa Vicentina: a rota junto ao Atlântico
A opção mais bonita para quem gosta de mar é seguir pela costa, acompanhando parte do litoral alentejano e da Costa Vicentina. Esta rota é especialmente interessante para quem prefere chegar ao Algarve depois de ter passado por praias, vilas costeiras e alguns dos troços mais bonitos do sudoeste português.
Depois de sair de Lisboa, pode seguir em direção a Setúbal, atravessar para Tróia de ferry e continuar pela Comporta, Melides, Sines, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes, Zambujeira do Mar e Odeceixe. A partir daí, entra no Algarve pela costa oeste, com Aljezur, Arrifana, Bordeira, Carrapateira, Vila do Bispo e Sagres como possíveis paragens antes de seguir para Lagos, Portimão, Albufeira ou Faro.
O grande interesse desta rota está no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, uma das zonas costeiras mais protegidas do país, entre São Torpes e Burgau, com falésias, praias, dunas e uma biodiversidade muito própria.
Para quem quer fazer Lisboa ao Algarve pela costa, esta rota pede um dia inteiro e algumas paragens bem escolhidas. O segredo está em não tentar parar em todo o lado. Escolha três ou quatro pontos. Por exemplo: café em Porto Covo, almoço em Vila Nova de Milfontes, paragem rápida na Zambujeira do Mar e fim de tarde em Odeceixe ou Arrifana. Quem segue para o Barlavento algarvio pode continuar por Aljezur e Sagres. Para quem faz o percurso de Lisboa a Portimão, esta pode ser uma das formas mais bonitas de chegar ao destino.
Pela EN2: a estrada clássica de Portugal
A EN2 tem uma reputação quase mítica. Liga Chaves a Faro ao longo de cerca de 739 km e atravessa 35 concelhos, sendo frequentemente comparada a uma Route 66 portuguesa pela forma como cruza o país de norte a sul.
Para quem procura uma alternativa interior para fazer a rota de Lisboa ao Algarve, não é necessário percorrer a EN2 inteira. Pode entrar nela mais a sul, por exemplo na zona de Montemor-o-Novo, e seguir por localidades como Alcáçovas, Torrão, Ferreira do Alentejo, Castro Verde, Almodôvar, São Brás de Alportel e Faro.
Esta é uma rota menos atlântica e mais interior. Troca as praias por planícies, aldeias, cafés de estrada, campos abertos e vilas onde a viagem abranda, mas sem perder interesse. O troço entre Almodôvar e São Brás de Alportel é particularmente interessante pela passagem da serra para o Algarve, com curvas, mudanças de altitude e a entrada gradual no sul.
A EN2 é uma boa escolha para quem vai para Faro, Olhão, Tavira, Loulé ou São Brás de Alportel. Também funciona bem no sentido inverso, para quem sai do Algarve e quer regressar a Lisboa por uma estrada com mais personalidade do que a autoestrada.
Num só dia, a sugestão é manter o plano simples: uma paragem para café numa vila alentejana, almoço em Castro Verde ou Almodôvar e entrada no Algarve por São Brás de Alportel. Não é uma rota de grandes atrações, mas é uma viagem de pequenas pausas, boa comida e estrada com carácter.
Pelo Guadiana e pelo Alqueva: o sul interior
A terceira opção é a mais inesperada para quem associa a viagem de Lisboa ao Algarve apenas à A2 ou à costa. Seguir pelo interior, aproximando-se do Guadiana, abre outro mapa: Castro Verde, Mértola, Serpa, Moura, Monsaraz, Alqueva e, depois, a descida para o Algarve.
Não é o percurso mais direto para quem quer chegar depressa, mas pode ser uma escolha interessante para quem já conhece bem a costa e quer uma viagem com outro tipo de paisagem.
Castro Verde integra uma Reserva da Biosfera da UNESCO e é uma referência para observação de aves, com destaque para o Campo Branco, uma zona de grande importância para a biodiversidade das aves estepárias.
Mais a leste, o Alqueva oferece uma paragem diferente: aldeias históricas, vinhas, olivais e céu estrelado. O Dark Sky Alqueva tornou esta zona uma referência para observação astronómica, com um observatório na Cumeada, perto de Reguengos de Monsaraz.
Esta rota pede mais seleção e para a fazer num dia entre Lisboa e o Algarve, convém escolher apenas uma zona principal. Por exemplo: sair cedo, parar em Monsaraz e seguir depois para sul. Ou optar por Mértola, com almoço e passeio curto antes de continuar para o Algarve pela zona de Alcoutim, Castro Marim ou Tavira.
Qual rota escolher?
Entre a Costa Vicentina, a EN2 e o interior pelo Guadiana e Alqueva, há várias formas de fazer a rota de Lisboa ao Algarve sem reduzir o caminho à autoestrada.
Para quem quer mar, falésias e aldeias costeiras, a Costa Vicentina é a escolha mais bonita. Para quem quer uma estrada clássica, com Portugal interior pelo meio e chegada natural a Faro, a EN2 é a opção mais direta dentro das alternativas à autoestrada. Para quem já conhece os caminhos habituais e quer uma viagem diferente, com planícies, rio, castelos e céu limpo à noite, o eixo Guadiana-Alqueva pode ser uma surpresa.
O importante é não tratar estas rotas como uma lista de tarefas. Num dia, não se vê tudo. A graça está em escolher poucas paragens, conduzir com tempo suficiente e deixar que a viagem também conte como parte das férias.
Afinal, se todos os anos o Algarve começa com uma fila interminável na autoestrada, talvez este seja o ano de mudar a entrada. O destino continua a ser o Algarve, mas o caminho pode deixar de ser apenas uma passagem.